"Eu tenho ódio e sei o que é mau pra mim"
“Eu tenho ódio e sei o que é mau pra mim”
Esse trecho da música “Negro drama” dos Racionais Mc's me vem forte à
mente ultimamente dadas as circunstâncias pessoais e mais recentemente sociais.
É incrível como vejo a humanidade brasileira se alimentando do próprio
vômito, crendo em suas falsas penas e principalmente em sua hipocrisia, e claro, na
impunidade e privilégios de muitos que nem se tocam que são privilegiados.
A primeira coisa que tenho a dizer é sobre a condenação de Rafael Braga, rapaz
catador de recicláveis que foi preso em 2013 durante uma manifestação portando uma
garrafa de água sanitária e desinfetante, pelo que pesquisei, Rafael foi o ÚNICO que
seguiu preso e acabou de ser condenado a 11 anos de prisão. Qual foi seu crime?
Disseram que os materiais que estavam com ele seriam usados para fabricação de
coquetel molotov, ok; mas eu duvido que ele fosse produzí-los (se fosse) ali durante a
manifestação; vale apontar que já vi imagens de gente sendo presa em manifestações
portando pedras, paus e até rojões e bombas, você sabe de alguém que foi e ainda está
preso por isso?? Quantos?
Rafael Braga é preto, negro, pobre, sem estudos e atuante numa profissão
liberal. “Nego drama entre o sucesso e a lama”. É reinscindente “me ver pobre, preso
ou morto já é cultural”. Rafael é preto e pobre. Rafael é preto e pobre. Preto e pobre.
Por que ele ainda está preso e por quê foi condenado a cumprir uma pena tão
longa? Esses quatro anos que foi preso já não bastaram?
O que aconteceu com o rapaz que atropelou o limpador de vidros David Santos
(sobrenome simples, banal) ? Além de o atropelar decepando seu braço atirou o
mesmo num corrego. Teve sua pena reduzida em 2016, o nome dele: Alex Kosloff
Siwek (nem Silva, nem Santos, nem Souza) profissão estudante de Psicologia, ele
estava embriagado, mas teve noção de deixar o cara sem socorro e buscar onde largar
o braço de David, isso tudo também ocorreu em 2013. Por decisão judicial ele teve
sua pena reduzida por dois anos em regime aberto (seriam 6 em semiaberto)!
Suspensão de cnh e pagamento de indenização de 10 salários mínimos, mas a prisão
foi “susbtituída por serviços comunitários e prestação de 50 salários mínimos. Ah,
ele, Alex, foi solto no mesmo dia.
Rafael é preto e pobre está na cadeia desde 2013 e foi condenado a 11 anos por
portar água sanitária e desinfetante.
Cadê o Amarildo? Homem pobre, preto, pedreiro, morador de favela que sumiu
durante uma missão no morro onde morava na Rocinha, RJ, ele foi visto, por
filmagem, entrando para uma “ averiguação” numa UPP e nunca mais soube-se dele.
Um julgamento começou em 2014 mas não foi concluído ainda. Estamos em 2017.
Cláudia, preta, pobre e moradora de favela, inocente, baleada durante uma
troca de tiros, foi arrastada por 250 metros por uma viatura policial, sim 250 metros,
por uma viatura policial, eles, os policiais, foram alertados mas não pararam. Isso foi
em 2014 e os PM's não foram julgados.
Mudando de “assunto”, em 2012 a foto de um rapaz branco, de olhos azuis,
coberto por um cobertor cinza correu pelas redes causando frisson, segundo a pessoa
que o fotografou, o próprio rapaz, Rafael, quem pediu que tirassem sua foto para ver
se ficava “famoso”, ele é de Curittiba. Em instantes essa foto foi muito compartilhada
e ele acabou chegando nos canais de TV, vários programas o entrevistaram e ele
recebeu o título de “Mendigo Gato” e acabou sendo ajudado com internação em
clínica; hoje ele não quer mais ser “modelo” mas sim pensa em trabalhar na área de
gastronomia. Pouco tempo depois uma ex-modelo foi vista na Cracolância em SP, até
então era apenas uma mulher bonita (branca de olhos verdes que “não passava
despercebida”) vagando no meio daquelas pessoas como “zumbis”. Loemy, assim
como Rafael o Mendigo gato, foi entrevistada, saiu em jornais e capa de revistas e
recebeu ajuda de programas de TV; hoje Loemy está se tratando e está bem.
Mais recentemente, Andreas von Richthofen, irmão de Suzanne, mesmo
sobrenome, foi preso , estava mal vestido, sujo e com olhos “vidrados”. A imagem de
Andreas causou impacto saindo nos telejornais, revistas e jornais, e claro dado o que
houve em seu passado muitas lamentações por suas condições.
Onde quero chegar com isso?
Quantos mendigos gatos, ex-modelos e ex-herdeiros já tiveram notoriedade não
sendo brancos de olhos claros e muito menos sem nome e herança?
Loemy “não passava despercebida”, Rafael “queria ser famoso” e Andreas tem
seu sobrenome. Quantos homens bonitos, pretos e miseráveis andam pela Cracolância
e ruas despercebidos? Quantos homens e mulheres lindos são realmente considerados
zumbis? Ah, claro, ver viciados e bandidos pobres e pretos não é novidade, repito a
letra dos rappers “me ver pobre, preso ou morto já é cultural”.
Quantos casos de salvamentos você já viu na TV com usuários e usuárias
negros?
Parece que branco precisa ser salvo mais que um preto, o branco bonito e de
olhos claros não pode passar despercebido, tem potencial demais pra estar sem
amparo.
Amparo. Quem ampara a família de Rafael Braga, os 4 filhos de Claúdia e
esposa e filhos de Amarildo? Quem se importa com os pretos, pobres e sem
sobrenomes que estão zumbizando pelas ruas e morrendo e/ou sendo intimidados pela
polícia, guada-civil di-a-ri-a-men-te? “Eu tenho ódio sei o que mal pra mim.”
Sei que esse texto está inflamado e parece perder o fio muitas vezes mas é aí
que está o problema o início do fio se perdeu, não sei por onde pode ser puxado pra
que seja desenrolado e se resolvam e desatem todos esses nós! Sei que a cada prisão
não investigada e caso não julgado, cada morte não investigada, cada mau-trato que
ocorre nesse país na classe pobree escura é sem dúvida herança de racismo
institucional e ditadura, casos que esse país cobre, esconde e nunca resolve, enquanto
isso a classe que mais sofre é a pobre e preta, não importa se estamos bem vestidos,
se estudamos, se falamos bem, somos vistos comos pretos, pobres “preto e dinheiro
são palavras rivais” e sem o mínimo respeito e cidadania “eu sei quem trama e quem
tá comigo”.
“Você deve tá pensando o que você tem a ver com isso?” Pensa mesmo, pense
em como você fala dos pobres, dos que não tem sobrenome, dos que moram lá em
cima, mas não num castelo mas num morro, nas cohabs, nos que são olhados com
ódio pela políca que parece torcer pro cara estar manjado só pra ter o gosto de usar
sua “autoridade”. Pensa porque todos nós temos algo a ver com isso, e depois de
séculos de escravidão e anos de ditadura as coisas AINDA NÃO MUDARAM. Pense
mesmo o que você tem a ver com isso e pense em como mudar. Por favor.
“Eu vim da selva sou leão, sou demais pro seu quintal”.
Esse trecho da música “Negro drama” dos Racionais Mc's me vem forte à
mente ultimamente dadas as circunstâncias pessoais e mais recentemente sociais.
É incrível como vejo a humanidade brasileira se alimentando do próprio
vômito, crendo em suas falsas penas e principalmente em sua hipocrisia, e claro, na
impunidade e privilégios de muitos que nem se tocam que são privilegiados.
A primeira coisa que tenho a dizer é sobre a condenação de Rafael Braga, rapaz
catador de recicláveis que foi preso em 2013 durante uma manifestação portando uma
garrafa de água sanitária e desinfetante, pelo que pesquisei, Rafael foi o ÚNICO que
seguiu preso e acabou de ser condenado a 11 anos de prisão. Qual foi seu crime?
Disseram que os materiais que estavam com ele seriam usados para fabricação de
coquetel molotov, ok; mas eu duvido que ele fosse produzí-los (se fosse) ali durante a
manifestação; vale apontar que já vi imagens de gente sendo presa em manifestações
portando pedras, paus e até rojões e bombas, você sabe de alguém que foi e ainda está
preso por isso?? Quantos?
Rafael Braga é preto, negro, pobre, sem estudos e atuante numa profissão
liberal. “Nego drama entre o sucesso e a lama”. É reinscindente “me ver pobre, preso
ou morto já é cultural”. Rafael é preto e pobre. Rafael é preto e pobre. Preto e pobre.
Por que ele ainda está preso e por quê foi condenado a cumprir uma pena tão
longa? Esses quatro anos que foi preso já não bastaram?
O que aconteceu com o rapaz que atropelou o limpador de vidros David Santos
(sobrenome simples, banal) ? Além de o atropelar decepando seu braço atirou o
mesmo num corrego. Teve sua pena reduzida em 2016, o nome dele: Alex Kosloff
Siwek (nem Silva, nem Santos, nem Souza) profissão estudante de Psicologia, ele
estava embriagado, mas teve noção de deixar o cara sem socorro e buscar onde largar
o braço de David, isso tudo também ocorreu em 2013. Por decisão judicial ele teve
sua pena reduzida por dois anos em regime aberto (seriam 6 em semiaberto)!
Suspensão de cnh e pagamento de indenização de 10 salários mínimos, mas a prisão
foi “susbtituída por serviços comunitários e prestação de 50 salários mínimos. Ah,
ele, Alex, foi solto no mesmo dia.
Rafael é preto e pobre está na cadeia desde 2013 e foi condenado a 11 anos por
portar água sanitária e desinfetante.
Cadê o Amarildo? Homem pobre, preto, pedreiro, morador de favela que sumiu
durante uma missão no morro onde morava na Rocinha, RJ, ele foi visto, por
filmagem, entrando para uma “ averiguação” numa UPP e nunca mais soube-se dele.
Um julgamento começou em 2014 mas não foi concluído ainda. Estamos em 2017.
Cláudia, preta, pobre e moradora de favela, inocente, baleada durante uma
troca de tiros, foi arrastada por 250 metros por uma viatura policial, sim 250 metros,
por uma viatura policial, eles, os policiais, foram alertados mas não pararam. Isso foi
em 2014 e os PM's não foram julgados.
Mudando de “assunto”, em 2012 a foto de um rapaz branco, de olhos azuis,
coberto por um cobertor cinza correu pelas redes causando frisson, segundo a pessoa
que o fotografou, o próprio rapaz, Rafael, quem pediu que tirassem sua foto para ver
se ficava “famoso”, ele é de Curittiba. Em instantes essa foto foi muito compartilhada
e ele acabou chegando nos canais de TV, vários programas o entrevistaram e ele
recebeu o título de “Mendigo Gato” e acabou sendo ajudado com internação em
clínica; hoje ele não quer mais ser “modelo” mas sim pensa em trabalhar na área de
gastronomia. Pouco tempo depois uma ex-modelo foi vista na Cracolância em SP, até
então era apenas uma mulher bonita (branca de olhos verdes que “não passava
despercebida”) vagando no meio daquelas pessoas como “zumbis”. Loemy, assim
como Rafael o Mendigo gato, foi entrevistada, saiu em jornais e capa de revistas e
recebeu ajuda de programas de TV; hoje Loemy está se tratando e está bem.
Mais recentemente, Andreas von Richthofen, irmão de Suzanne, mesmo
sobrenome, foi preso , estava mal vestido, sujo e com olhos “vidrados”. A imagem de
Andreas causou impacto saindo nos telejornais, revistas e jornais, e claro dado o que
houve em seu passado muitas lamentações por suas condições.
Onde quero chegar com isso?
Quantos mendigos gatos, ex-modelos e ex-herdeiros já tiveram notoriedade não
sendo brancos de olhos claros e muito menos sem nome e herança?
Loemy “não passava despercebida”, Rafael “queria ser famoso” e Andreas tem
seu sobrenome. Quantos homens bonitos, pretos e miseráveis andam pela Cracolância
e ruas despercebidos? Quantos homens e mulheres lindos são realmente considerados
zumbis? Ah, claro, ver viciados e bandidos pobres e pretos não é novidade, repito a
letra dos rappers “me ver pobre, preso ou morto já é cultural”.
Quantos casos de salvamentos você já viu na TV com usuários e usuárias
negros?
Parece que branco precisa ser salvo mais que um preto, o branco bonito e de
olhos claros não pode passar despercebido, tem potencial demais pra estar sem
amparo.
Amparo. Quem ampara a família de Rafael Braga, os 4 filhos de Claúdia e
esposa e filhos de Amarildo? Quem se importa com os pretos, pobres e sem
sobrenomes que estão zumbizando pelas ruas e morrendo e/ou sendo intimidados pela
polícia, guada-civil di-a-ri-a-men-te? “Eu tenho ódio sei o que mal pra mim.”
Sei que esse texto está inflamado e parece perder o fio muitas vezes mas é aí
que está o problema o início do fio se perdeu, não sei por onde pode ser puxado pra
que seja desenrolado e se resolvam e desatem todos esses nós! Sei que a cada prisão
não investigada e caso não julgado, cada morte não investigada, cada mau-trato que
ocorre nesse país na classe pobree escura é sem dúvida herança de racismo
institucional e ditadura, casos que esse país cobre, esconde e nunca resolve, enquanto
isso a classe que mais sofre é a pobre e preta, não importa se estamos bem vestidos,
se estudamos, se falamos bem, somos vistos comos pretos, pobres “preto e dinheiro
são palavras rivais” e sem o mínimo respeito e cidadania “eu sei quem trama e quem
tá comigo”.
“Você deve tá pensando o que você tem a ver com isso?” Pensa mesmo, pense
em como você fala dos pobres, dos que não tem sobrenome, dos que moram lá em
cima, mas não num castelo mas num morro, nas cohabs, nos que são olhados com
ódio pela políca que parece torcer pro cara estar manjado só pra ter o gosto de usar
sua “autoridade”. Pensa porque todos nós temos algo a ver com isso, e depois de
séculos de escravidão e anos de ditadura as coisas AINDA NÃO MUDARAM. Pense
mesmo o que você tem a ver com isso e pense em como mudar. Por favor.
“Eu vim da selva sou leão, sou demais pro seu quintal”.
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